* meu livro de receitas *

Gosto de infância May 5, 2009

Filed under: histórias, pensamentos & memórias — gabivuolo @ 7:20 pm

Eu sempre tive memória gastronômica. Lembro de lugares pelos seus sabores. Lembro de pessoas por causa das coisas que comi quando estava com elas. Lembro de sensações e sentimentos quando como um determinado prato. Aí, é só comer aquela coisa de novo e toda a história volta na cabeça…

Embora isso aconteça até hoje – e acho que vai acontecer pelo resto da vida – minhas memórias gastronômicas prediletas são as de infância. Elas quase sempre estão ligadas à casa da minha avó (mãe de mamãe): bolinhos de carne com batata, pimentão recheado, berinjela (à parmegiana ou à milanesa), manjar de coco, brigadeirão, queijadinha. E aquele bolo de laranja indefectível, com a casquinha de açúcar por cima…

E por valorizar tanto essas memórias, desde pequena eu cozinho [ou tento, pelo menos]. Eu dizia que queria aprender pra poder passar adiante os pratos tradicionais da família… Não que a minha avó encarasse esses pratos como receitas de família; pelo contrário, pra ela isso era comida do dia-a-dia, ela nem tinha receita pra essas coisas! Mas eram coisas que eu só comia lá, então pra mim eram sim os tesouros culinários da família.

Eu tentei… Tentei o brigadeirão. Tentei o manjar. Tentei a queijadinha. Tentei o pimentão recheado. Todos eles deram errado. Pensei em parar de cozinhar, mas depois me dei conta de que as outras coisas que saíam da minha cozinha iam muito bem, obrigada. Talvez o problema fosse justamente a falta de receitas da minha avó, o famoso olhômetro. Então continuei cozinhando, mas abandonei as receitas de família.

E aí aconteceu uma coisa curiosa: agora, no começo do ano, meio sem querer, numa refeição despretensiosa em família, meu pai confessou que várias vezes já tinha viajado quase 150km só pra comer aquele prato – o macarrão a bolonhesa da minha tia. Eu nunca fui fã de macarrão a bolonhesa, sempre achei muito basicão. Mas, de fato, aquele molho era incrível, diferente de todos que eu já tinha comido… mas não era uma memória gastronômica da minha infância.

Perguntei o que tinha de diferente, mas meu pai me disse que era segredo de família. Só sabia que levava noz moscada (que eu adoro!), mas que a receita mesmo minha tia não contava de jeito nenhum…

Fui pra casa tão intrigada com aquele sabor que uns dias depois resolvi arriscar – mesmo sem saber o que colocar no molho além da noz moscada. Passei um tempo na cozinha, olhando meus temperos… Fechava os olhos, cheirava os potinhos, tentava lembrar o sabor e relacionar com o que as minhas narinas sentiam. Quase uma alquimia… E assim fui colocando as coisas na panela, sem medida, sem receita.

Molho pronto, mesa posta, todos em seus lugares… A panela de molho borbulhante chega à mesa, sirvo todos e volto pra cozinha, pra pegar as bebidas e copos que eu tinha esquecido. De repente escuto a vozinha vinda da sala:

– Esse macarrão tá muito gostoso, mamãe! Que delícia… Obrigada, mamãe!

E foi assim que eu ganhei mais uma memória gastronômica. E essa, apesar de não lembrar a minha infância, tem gosto de infância pra mim. Ou pelo menos gosto de família. E o mais louco é pensar que tem gosto de família pro meu pai também. Porque o molho ficou parecido com o da minha tia, viu… [modéstia à parte, claro]

Fiquei pensando que vai ver é assim que se constrói uma receita de família – gerações e gerações ligadas por um determinado sabor. E pelo cuidado em não revelar o segredo que faz aquele sabor ser tão único e tão reconfortante.

Espero que essa receita reconforte os corações dos que vão jantar em casa hoje (meu pai, minha irmã e meu filho, dentre outros). Estamos todos precisando.

[não, o segredo do molho não é só a noz moscada. Mas eu não conto os outros segredos nem no leito de morte…]

 

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